Diários de Bicicleta é uma síntese do livro com o mesmo nome, escrito por David Byrne ao longo dos últimos anos. Num estilo despojado que passeia entre ensaio, relato de viagens, diário pessoal e albúns de fotografia, David Byrne registra também suas reflexões sobre uma variedade de assuntos. O livro foi publicado no Brasil pela editora Amarilys.

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terça-feira, 1 de junho de 2010

São Francisco (IV)

David Byrne*
De volta a São Francisco, pedalo até a Taqueria Cancun, que tem incríveis tacos e burritos. Você escolhe o tipo de carne do recheio - carne assada, porco ou frango, naturalmente, mas também cabeça, língua e miolos. Então coloco a bicicleta em um ônibus municipal, todos com lugares para prender bicicletas na frente(!).
 O ônibus que escolhí atravessa a Ponte Golden Gate até Sausalito (na foto, faixa exlusivas para bicicletas) e Marin County. Há trilhas para bicicletas por todo promontório e  a oeste da Marina, grande parte mantida como área de presenvação nacional. É possível ver falcões, urubus, pumas e focas. As trilhas adentram, cercam e estão por todas as colinas áridas e cheias de neblina. Finalmente a maioria das trilhas acaba levando até pequenas enseadas ou praias escondidas. Das colinas dos promontórios você não consegue ver a cidade de jeito nehum; até a ponte Golden Gate é escondida.
O ar revigirante e a névoa me lembram as sombrias, porém lindas Terras Altas da Escócia, embora a garoa seja menos frequente aquí. Na Escócia, assim como na Islândia e na Irlanda, já existiram florestas que cobriam as colinas, mas gradualmente elas foram todas desmatadas, deixando um território bonito e que parece um outro mundo estranho.
*David Byrne, músico e escritor, nasceu na Escócia e vive em Nova York desde o final da década de 70, onde utiliza a bicicleta como meio de transporte.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

San Francisco III

David Byrne*
Não é por acaso que a humilde garagem onde Bill Hewlett e Dave Packard começaram sua sociedade em Palo Alto é um ícone aqui. Como o estúdio Sun, em Memphis, onde nasceu o rock, ou Menlo Park, em Nova Jersey, onde Edison iluminou o mundo, esta garagenzinha bagunçada é reverenciada, em parte, porque não é nada especial. Ser tão comum é justamente o xis da questão. O primeiro produto deles foi um oscilador de áudio para testar equipamentos de som. A HP se refere a ele como "o tom ouvido ao redor do mundo".
A garagem é considerada o local de nascimento do Vale do Silício, o que a transforma na perfeita metáfora visual da doutrina qualquer-um-pode-fazer, que ainda está bem viva por aqui. Comece pequeno, pense grande. Pense fora da caixa. Pense diferente.
São todos pensamentos hippes, mas com outras palavras.
No primeiro boom das ponto-com, os preços das propriedades em uma cidade cercada como São Francisco (ou Manhattan) naturalmente dispararam. Garotos recém-formados que não estavam no mundo das ponto-com - jovens artistas, músicos, escritores, atores, excêntricos e boêmios, o tipo de gente pelo qual essa cidade era anteriomente famosa ( e que podem ter sido a inspiração para os sujeitos das ponto-com) - foi empurrado para as margens ou para Oakland e outros lugares.
No final dos anos 90 tudo aquilo ruiu, mas os preços das propriedades nunca baixaram de volta ao que eram antes. O vasto número de espíritos livres e boêmios nunca voltou após ter sido desalojado. O mundo mudou sim um pouquinho com a primeira revolução ponto-com, mas não de forma total, radical e completa como alguns imaginavam. Nem todo mundo estava pronto para viver inteiramente on-line tão rápido quanto alguns tinham apostado.
Talvez com a Web 2.0, com seus websites comerciais mais socialmente interativos e responsivos - e com Wi-Fi e banda larga mais rápida e bem mais distribuída - algumas dessas mudanças imaginadas possam realmente ocorrer em nossas vidas, mas não com as coisas que a primeira revolução prometeu.
Paradoxalmente, enquanto se torna cada vez mais fácil organizar todo tipo de serviço por nossos telefones ou laptops e acessar informações sem limites, o interesse e a procura por coisas que não podem ser digitalizadas aumenta: performances ao vivo, encontros cara a cara, interações, experiências, gostos, tranquilidade.
Aqueles que frequentam redes de relacionamento social passam a valorizar a autenticidade como um tipo de compensação, já que essas qualidades podem ser falsificadas com muita facilidade no mundo on-line.
*David Byrne, músico, fotógrafo e escritor, mora em Nova York e utiliza a bicicleta como meio de transporte desde o final da década de 70. Escreveu Diários de Bicicleta, publicado no Brasil pela editora Amarilys.

domingo, 30 de maio de 2010

Cupertino - (San Francisco II)

David Byrne*
Mas então olho para Jonathan (na foto com Steve Jobs), de camiseta e com o cabelo quase raspado, e percebo que, sim, ele parece uma versão um pouco mais velha de qualquer garoto clubber britânico. Será que não deve ser chato para ele morar aquí em Cupertino?
Cupertino fica ao sul de São Francisco e a oeste de San Jose. É uma cidade pequena que fica encaixada entre colinas costeiras e vinícolas. Não há muito por aquí - alguns centros empresariais, shopping centers e uma maravilhosa mercearia asiática. As colinas a oeste abrigam muitas das novas mansões que os tecnocratas construíram. Não muito longe estão Hewlwtt-Packard, Google, Sun Microsystems e outras empresas do Vale do Silício, que transformaram uma área anteriormente conhecida como o lar da Universidade de Stanford e a pacata cidadezinha de San Jose em uma usina de ideias, inovações, computadores e TI. A região registra uma intensa concentração de engenheiros, nerds, técnicos, empreendedores, visionários e parasitas.
Pelo que posso dizer, não há muita coisa para se fazer nesta parte da baía. Pedalo minha bicicleta bem sem rumo, descendo por avenidas limpas e impecáveis, e não vejo ninguém por perto - nem caminhando nem de bicicleta. (na foto, Cupertino Memory Park) Todas as vias levam a lugares que são versões do que eu acabei de deixar para trás. Pergunto se o pessoal daquí vai para São Francisco para assistir a shows, mostras ou para provar a inovadora cozinha dos restaurantes de lá. Não, esses caras simplesmente amam seus trabalhos, então eles ficam plantados aqui em seus belos subúrbios, trabalhando até tarde, ou levam trabalho para casa.
Há quantias gigantescas de dinheiro aqui. Na época dos Carnegies, Fricks, Mellons, Dukes e Lauders, bilionários faziam estardalhaço apoiando museus de arte local, hospitais, bibliotecas ou outras causa ou instituição de caridade - como Bill Gates fez com a sua Gates Foundation e Paul Allen fez com a Experience Music Project. Mas o que eu mais sinto é que esta turma prefere encarar desafios dentro de seus próprios ramos escolhidos - desenvolvimento de software, tecnologia de Internet, aparelhos bacanas e o que acontece quando você junta tudo isso. Tenho a sensação de que pelo menos alguns deles não ligam muito para todo o dinheiro que estão ganhando também - eles estão ocupados demais para contá-lo. Tudo é tão real quanto Second Life.
Lembro de São Francisco durante o primeiro boom das ponto com. Naquela época todo mundo ia começar seu próprio negócio on-line, o mundo ia mudar da noite para o dia e os investidores estavam fazendo fila para dar dinheiro a todos os geeks com uma ideia vaga, uma boa conversa e algumas habilidades em programação. O fervor e o entusiamo daquela época podem ser comparados ao Projeto Manhattan e seu empenho na cosntrução da bomba atômica. Isto é, era excitante e tinha potencial para mudar o mundo. Mas aquí a mesma paixão missionária foi incorporada pelos inventores/empreendedores malucos. O futuro parecia pré-ordenado - ninguém jamais precisaria sair de casa novamente. Toda ideia era uma ótima ideia, revolucionária, abalaria o mundo. Não é de se estranhar que o mundo da Web às vezes seja descrito como um legado da era hippie - mais com brinquedos mais caros.
* David Byrne , é músico, fotógrafo e escritor. Nasceu na Escócia e mora em Nova York desde o final da década de 70, onde utiliza a bicicleta como meio de transporte. Escreveu Diários de Bicicleta, publicado no Brasil pela editora Amarilys.

sábado, 29 de maio de 2010

São Francisco

David Byrne*
Estava chovendo quando chequei aqui ontem à noite, mas hoje o céu clareou e esta cidade brilha com  a luz cristalina do norte da Califórnia, que faz tudo se destacar. Todos os prédios e pessoas têm linhas duras e frias. É bucólico e difícil de acreditar - uma paisagem de cartão postal, irreal. A bicicleta dobrável que eu trouxe vai ser útil.
São Francisco é filosófica e politicamente simpática às bicicletas (na foto, faixa de proteção para bicicletas, perto da rua Castro), mas não em termos geográficos - suas famosas ladeiras podem fazer alguém pensar duas vezes antes de dar umas voltas pela cidade, mesmo com a cidade propriamente dita sendo concentrada, como Manhattan ou uma cidade europeia. A organização de ciclismo local lançou um mapa maravilhoso que mostra, pela variação de tons de vermelho, o quanto cada rua é íngreme. Uma rua marcada de rosa claro é uma subida leve, mas um vermelho escuro é uma grande ladeira a ser evitada, a não ser que você seja masoquista. Felizmente, esse mapa permite que se planeje uma viagem livre de ladeiras em uma única olhada. Eu não teria pensado nisso, mas você pode planejar uma rota partindo e chegando a quase qualquer lugar e evitar as piores ladeiras - ou quase.
Minha amiga Melanie, organiza uma excursão até a sede da Aplle em Cupertino, próximo daquí, ao sul, e um almoço com o diretor de arte, Jonathan Ive (foto). A equipe de Ive desenhou o iMac original e seus sucessores, o iBook original e seus sucessores, o Power Mac, o Power Mac G4 Cube, o PowerBook, a família iPod e muito mais.
Ive faz uma pequena apresentação com um PowerBook desmontado, mostrando-nos que mesmo por dentro ele é inteligente e elegantemente projetado. Ele parece tão orgulhoso dos intricados mecanismos e peças invisíveis da parte interna como do elegante lado externo. Ele acredita que o design envolve tudo: não é apenas uma decoração do lado de fora que faz tudo parecer bacana, mas se estende às coisas que a maioria de nós nunca vai ver. Nos círculos da Bauhaus e da Wiener Wetkstätte, enfeites desnecessários eram proibidos - considerados não essenciais e supérfulos à integridade do objeto ou da arquitetuta - e assim eram descartados. É famosa a comparação de Adolf Loos¹ entre a decoração e o diabo. Será que o orgulho de Ive pelo design total de seus Power Books carrega desse legado?
Não acho que essa demonstração seja apenas uma questão de ego e orgulho. Ive sugere que, de fato, um interior elegante faz a coisa funcionar melhor também - que um bom design se iguala a uma boa funcionalidade - que se o verdadeiro caminho do bom design for seguido da maneira criteriosa, então não só o objeto terá uma aparência atraente, mas será também um objeto melhor.
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¹-N.T.: Arquiteto europeu conhecido pela autoria de um ensaio/manifesto intitulado Ornamento e crime, no qual proclama que a evolução da cultura progride com a eliminação da ornamentação em objetos utilitários.
* David Byrne, é mundialmente conhecido por seu trabalho como músico à frente da banda Talking Heads, cult dos anos 80. É formado em Design e vive desde o final da década de 70 em Nova York, onde utiliza desde então a bicicleta como meio de transporte. Escreveu Diários de Bicicleta, Editora Amarilys.

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